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Route 112 - Habitat Natural: Videoclipe

cyberpunk ficção fanfiction

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#1 Mr. Know-it-all

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Postou 11 agosto 2012 - 01:04

C. I
CIRANDA DE ALGUNS URUBUS

KM: 109. Nenhuma frequência funciona por aqui. O último posto de gasolina deve ter ficado há centenas de dezenas de quilômetros, e nessa paisagem horizontal, de areia, asfalto e nuvens, destaca-se um casebre de madeira rodeado por diversas motos, todas estacionadas para o abastecimento vicioso das necessidades humanas de viajantes. Uma escadaria de três degraus leva à área da frente, texana o suficiente; e apesar da aparência rudimentar, a porta é de ferro, automatizada, com detector de presença e tem lá seus dois metros de altura. Faixas de segurança pintadas na borda direita e nota-se a marca do fabricante cunhada no centro de sua área. Depois de se deparar com este tipo de tecnologia, repara-se também nos canos espessos que ligam determinados pontos com alguma tubulação subterrânea. É um casebre do futuro.


O ambiente não é dos piores, sons de guitarra e country preenchem as quatro paredes ecoando daquele jukebox vintage, com escuridão o suficiente e iluminação de neon para os letreiros, até nas mesas de bilhar. O porteiro é quase tão estranho quanto o barman, embora compense isso fazendo drinques melhor que qualquer ciborgue da Continental que você possa encontrar por aí. É um paladar humano que apenas organismos biológicos possuem. Passando por eles encontrará o bordel, ou casa de massagem, ou como queira chamar. Lá conseguirá um quarto para realizar algumas fantasias ou matar um “rato” sem ser infortunado.


Quarto: 2001. Tem esse cheiro de bebida destilada e nicotina onde alguns feixes de luz expressam a densidade da fumaça, ambientada em algum tipo de sótão habitado por pouca vida inteligente. Trocam silêncio e olhares num jogo de inúmeras modalidades, lutando por um prêmio levantado pela união de suas apostas e sua fé de vencer com esse baralho marcado e a experiência de tapear inúmeros oponentes. Uma janela fechada, com raios de sol passando por suas fendas e buracos, que parecem rastros de balas perdidas, mais uma lâmpada de filamento bem velha proporciona a precária iluminação daquele santuário. É dia e não há luz. Lembra um clipe de rockabilly, onde Jack, Mack, Zach e um qualquer se atiram aos vícios.


Jack: ...

Mack: ...

Zach: ... Aumento.

Parece um jogo acirrado de Blackjack, e acontece nos olhares e no reflexo das fichas sobrepostas à mesa de madeira. A cruz desenhada pelos acentos faz parecer que eram organizados o suficiente para ter alguma praticidade, mas tudo ali, exatamente tudo, era obra de pura coincidência e improviso.

Mack: ... ‘Cês não ‘tão com nada hoje...

Jack: Aí... novato!

Qualquer: Hein?

Jack: ‘Cê é muito quieto!


Esse é o Jack. Não que eu seja o maior conhecedor da psicologia humana para ditar, mas ainda está pra nascer alguém que diga coisas mais óbvias que as dele. Dá pra ver na cara dele de barba mal-feita e cabelo pixaim que é um cara tão comum que os comuns se sentem diferentes, e justo hoje decidiu vir com a camisa aberta e essa pança aparecendo; ao menos tem um belo par de botas. À essa altura do campeonato já deve esta bêbado de nicotina e Bourbon, e em demasia, porque mal enxerga as cartas e queria ter desistido há muito tempo. Seu passatempo favorito é dar calotes. O segundo é enrolar alguém com baboseiras verbais.


Qualquer: Só estava me concentrando...

Mack: Hahahahah! Zach, serve um goró pra ele aí! Fala aí, ‘cê é virgem ainda?


Mack foi um recruta dos Black Berets, a mais perigosa milícia que ronda as estradas desse canto da desertificação. Uns dizem que ele é homossexual e por isso foi expulso sem chegar sequer a um posto mínimo. E uma coisa é certa: ele compensa isso tentando adivinhar a sexualidade dos outros, mas negando sua própria. Não é feio, mas tem péssimos hábitos por debaixo da roupa de couro.


Jack: É, vamo’ pagar uma biscatinha pr’ele aí. Hahahah!

Zach: Calma! Ele nem deve bater uma punhetinha pra saber do que se trata.


O que falar desse aqui? Tem um sotaque estranho e conjuga palavras na segunda pessoa. Ninguém sabe de onde veio, mas se colocarmos um galego bigodudo a lá João Romão ao lado dele, não saberemos diferenciá-los. Ele odeia seu nome, então se apresenta com metade dele.


Qualquer: Vocês são hilários. Eu tenho idade o suficiente pra ensinar...


O quarto e não menos importante jogador de 21 é um valete em pessoa. A Jack-of-all-trades, but a master of none. Escreve enjambement como ninguém e consegue citar nomes que memória humana alguma tem traços de recordação. Diferente dos outros três, ele está descalço e com um pijama que lembra Robert Smith no videoclipe do Lullaby, mas não é uma boa comparação; ele não se pinta, mas também não penteia o cabelo. Você pode ter ouvido falar que ele foi formado pela antiga Academia. Não é verdade. Ele não terminou o curso.


Mack: Então é viado!

Jack: Ih, é viado...

Zach: És um maricas.

Qualquer: Que babaquice é essa, vão ficar aí ditando isso agora? Parece que sempre a conversa termina em um comentário imbecil até vocês voltarem a falar porcaria nenhuma. – Disse o rapaz estapeando o tablado da mesa.

Jack: ?

Mack: !?

Zach: (silêncio)

Qualquer: Vocês ficam sentados aqui a vida toda desperdiçando a saúde de seus quadris num jogo como se isso fosse a obra-mór da causalidade humana, é um absurdo como uma rotina de trabalho. Só que com jogos de azar. – Aos gestos e berros, o décimo componente do baralho levanta a voz com seus adversários em uma espécie de desabafo. Na medida que essa frase se tornou um discurso ele se levantou, até ver que isso foi excêntrico e desnecessário, como muitos detalhes de sua personalidade.

Mack: Peraí, peraí...

Jack: Hah hah hah hah!

Qualquer: Acha isso engraçado?!

Zach: (suspiro)

Qualquer: P-... – E é interrompido.


Interrupção? Oh, sim. O Qualquer é interrompido por um barulho ensurdecedor, o grito de secessão da pólvora num disparo certeiro, pela mão do alfaiate Zach agulhando diretamente coração de Jack, que cai tombando a cadeira na costura de um assassinato. Isso provoca um silêncio funesto na sessão, que interrompe o falante Qualquer em detrimento do antigo jogo que, agora, parece estar desequilibrado.


Mack: !!!


O cano fumegante do .357 se volta para o Qualquer, junto do olhar petulante do assassino. Parece não só esperar algo dele, mas esperar algo de surpreendente.


Zach: Que dizias? Qual serias o fim do teu discurso?

Qualquer: ... Você atirou no cara.

Zach: Sim.

Qualquer: ... Você matou o cara.

Zach: Achas que eu deveria atirar outra vez?

Qualquer: ... Eu estou um pouco apavorado agora...

Zach: Estava a me interessar. Continuas.

Qualquer: ... Não vai conseguir uma palavra de mim me pressionando assim!... – Soou cantado, a sorrisos e trêmulos espasmos nas mãos.

Zach: Mack, preciso de tua ajuda. – Zach engatilha a arma.

Mack: ...! Ahn? Como as-...


Zach mata Mack. Mack tomba a cadeira com as pernas duras. Duas casualidades. A mesa redonda daquele quarto escuro pareceu perder dois membros. Zach, que há pouco apenas fazia torcia seu bigode com a ponta do polegar e do indicador, achou melhor uso para estes e atirou em todos os que o rodeavam, fazendo sobrar apenas o Qualquer, que não estava apavorado, mas indiscutivelmente surpreso. Os cigarros todos viriam a queimar e os copos acabaram por ficar em cima da mesa. Os cadáveres ocupavam um espaço que não impedia a movimentação de nenhum ser vivo lá dentro, muito embora a mesa estivesse entre todos eles.


Zach: Então...?

Qualquer: ..............

Zach: Queres me ajudar também? – Zach engatilha a arma e vira seu copo de Bourbon em um só gole. – Ora, gozado... – Mencionou, revirando as cartas com a ponta prateada de sua arma. - ... eu ganharia o jogo. Que pena. – Zach se levanta. Ele fita o Qualquer com os olhos fixos nele, que tremeu vez e outra, mas não parecia exatamente nervoso como tentou convencê-lo.

Qualquer: Cara, ...

Zach: Que é? Que foi?

Qualquer: (suspiro), Matar essa mesa foi o maior sinal de insegurança que eu já vi em toda minha vida adulta.

Zach: Insegurança.

Qualquer: É notória sua insegurança pra vencer, você fica desesperado sempre que alguém faz uma jogada e sua pupila dilata como se estivesse tentando enxergar no breu total. Olhava mais pra mim do que pra sua mão, e isso até ajudaria, se não estivesse tão perto de perder.

Zach: Tu és engraçado, moleque. – Mencionou Zach, coçando a testa com a alça de mira do revolver. – Mas não existe resultado diferente na vida.

Qualquer: Não. Você não consegue conviver com o fato de que não está no controle das situações, e por isso torra todo seu dinheiro em jogos de azar, achando que é sua habilidade que te faz vencer em uma modalidade que depende de tudo, menos habilidade. Existe até um cálculo de possibilidades para calcular vitórias nisso, e eu tenho certeza que você não sabia disso.

Zach: Ora pois, e o que mais posso esperar de um jogo?

Qualquer: Não sei, você se arrepende?

Zach: Não. Eu os mataria mesmo assim. Isto parece um golpe pra ti?

Qualquer: Golpe, ‘tá legal. Está se justificando para uma testemunha? Ok, ok... me responda uma coisa. – Pronunciou, aos gestos. – Um cara está vivendo em um prédio muito alto, quando de repente, esse prédio pega fogo. O homem fica desesperado, e com medo de morrer pelo calor das chamas, ele se ajeita na janela e decide pular. Ele pula. Na metade do caminho ele berra. Na metade do caminho ele tomou conhecimento de que o que estava fazendo era suicídio e iria morrer. A partir daqui ele grita e ele morre uma morte trágica e arrependida.

Zach: Isto é agir por desespero, este homem não tinha noção de consequências.

Qualquer: O que você tem em comum com esse homem é o potencial da intenção. Talvez seja o maior valor moral de nosso tempo julgar o ato pela intenção, mas para você, os fins justificam os meios. Será que existe consequência para tirar uma vida?

Zach: A lei dos homens é a lei dos mais forte, e minha luta é para estar entre quem manda.

Qualquer: Está se justificando de novo, como se a vida fosse cruel, e ser cruel fosse uma vingança à vida.

Zach: Falas de solidariedade? És uma perda de tempo. És a invenção mais egoísta de um Criador para sua criação.

Qualquer: Há quem julga o oposto.

Zach: Fazer bem ao próximo é fazer bem a uma vontade pessoal. Pura vaidade! Pro inferno com estes bondosos fajutos, que ajudam o mundo e se sentem especiais por terem um pingo de boas ações. Por mais cruel que seja, eu mato porque preciso.

Qualquer: Como você é defensivo.

Zach: És uma questão de ponto de vista, entendes?

Qualquer: Deve dizer isso para todo mundo. E como é que você encara as coisas então?

Zach: Pelo cano de uma Magnum .357 Colt Python. Acredites em Deus. Eu acredito na alça de mira de minha arma.

Qualquer: ... Vai me matar agora?

Zach: Tu temes a morte? – Falou com um cigarro de palha nos lábios, acendendo-o com um fósforo.

Qualquer: Às vezes acho que espero por ela.

Zach: Triste. Não tens nada a perder? Provavelmente não conquistaste nada também.

Qualquer: Defina “conquista”.

Zach: Jamais conquistaste uma mulher, uma família, ou qualquer coisa que te fizesse sua. Jamais lutaste por algo por ser medroso demais ou indiferente demais. Pra que vives?

Qualquer: Essa é uma pergunta que me faço há muito tempo...

Zach: Onde estudaste?

Qualquer: Pareço tão estudado assim? Sou da Academia.

Zach: Me arrependo de não tê-la feito.

Qualquer: Já tentou? Está brincando, você é um golpista de mesa de baralho, como assim?!

Zach: Tu lembras a mim mesmo em tua idade. Vieste para cá na tentativa de livrar-te do tédio, mas estás se auto-destruindo desde que fugiu.

Qualquer: Atire logo, esse papo introspectivo já está me fazendo desejar facas.

Zach: Não te matarei. Tu não encararias a morte e te vingarias de mim. A morte não tira algo de quem nada tem a perder. Nossos caminhos não serão mais tão diferentes.

Qualquer: ... !?

Zach: Conquiste algo e um dia penso em tomar de ti.

Qualquer: Não sabe o que está falando...

Zach: Isto os teus livros de filosofia não ensinam. Fiques com a minha parte da aposta. - Havia um certo pesar em seu tom. Já de pé e colocando o chapéu, Zach recolheu as fichas da mesa, deixando uma quantia considerável de valores para seu antigo adversário. – Mas limpes essa sujeira.

Qualquer: Que porcaria é essa?! Pare aí mesmo! Aonde você vai?!

Zach: Ir embora pela porta, ora pois.

Qualquer: Quem pensa que é pra me dizer essas coisas? Não quero compaixão nenhum de um galego letrado e armado, se quer provar sua honra, que seja por atos. Mate-me se tem um motivo, seja qual for!

Zach: Por que não agradeces um favor que te faço?

Qualquer: Favor?!?!

Zach: Teus livros ensinaram-te muito. Mas está na hora de começares a viver. E isso eles não ensinam-te. Hoje tu serás responsável pela morte destes dois, e sobreviverás em nossa era onde os fracos não têm vez.

Qualquer: Isso justifica uma fuga, eh? Eh?!?!

Zach: Não estou a fugir. Acredito em tu, talvez mais do que ti mesmo.


O lusíada, por fim, tira dois ciscos de munição do bolso e recarrega seu revólver. Seis balas, completo. O tambor gira como um marca-passo, está tão bem cuidado que atrai olhos invejosos de qualquer canto do mundo.

Um trago, fumaça. Zach deixa a arma prateada que fora usada para matar Jack e Mack fica sobre a mesa como um presságio para o rapaz, que inquieto, mas calado; o assiste ir embora fumando um cigarro de palha deixando para ele um nó em seu destino, amarrado por jogos, trapaças e um cano fumegante.


C. II
A MANCHA NEGRA NO ASFALTO É MINHA TRILHA DE MIGALHAS


Hoje está ameno. É noite. Estamos numa espelunca de terceira situada no posto de gasolina ao pé de uma estrada interestadual com nosso cordial Wheel. Wheel é amigo de todos, mas reserva-se para pouquíssimos, pois não só é um motorista de primeira, como também é um excelente mecânico, engenheiro elétrico e entende de computadores melhor que a maioria dos frentistas analfabetos desse canto do apocalipse. O céu se fecha e Wheel está bebendo, a goles leves, um conhaque muito bem servido. Hoje todos riem, hoje é aniversário de um cliente. Wheel sai do barzinho, está muito cheio, prefere a calma e o silêncio da noite no acompanhamento de um bom drinque. Wheel encosta-se em seu carro, Dodge Challenger azul, enquanto cheira umidade no ar. Está nublado.

Hoje chove. É noite. Além das gotas de chuva é possível ouvir botas esmagando a textura pastosa do barro. Uma camionete estacionada na porta de um salão texano, inconvenientemente posicionado para longe do telhado do posto de abastecimento, deu passagem para três homens se deslocarem até a maloca dos bêbados e viciados, lotada com os tipos menos variados de vagabundos e malcheirosos. Festa divertidíssima. Pena que deixaram tantas marcas. Pena que vieram tão preparados para infligir violência como pinceladas em uma obra de arte. Gritam por Jack. Onde está Jack? No centro da ciranda de urubus, que hora cantou por ele, agora canta por ajuda, baleada ao som de tiros semi-automáticos. Jack está apavorado. Jack está devendo para um delegado agiota e não deveria estar ali. Jack deveria estar fugindo, caçado por leões em uma selva de pedras humana, que ao invés de mordidas, crava na pele das pessoas o fogo e o chumbo, cunhados com cartão de crédito e cédulas verdes. Jack sobrevive ao ataque e corre. Jack encontra um Dodge Challenger com a porta do passageiro aberta. Wheel julga-se digno de salvar uma vida e dá as boas vindas a seu novo cúmplice da boa vontade. Seu motor ronca, os tiros continuam, mas as luzes diminuem até sumir no horizonte; os tão chamados capangas não deixam barato e ligam o Ford Mustang 1969 para iniciar uma perseguição. O salão texano fica para trás, com vitrines e portas quebrados, tumulto e pessoas gritando. O estacionamento dava acesso a uma calçadinha, que levava para a porta. Com uma iluminação avermelhada, os tiros e o sangue se disfarçaram entre bebidas e resíduos que eram deixados ali. Apesar de tocar música country, o clima restante foi de puro blues e lágrimas.

Está mais quente dentro do carro. Ouve-se uma maestria sem igual no domínio da embreagem e do acelerador, e cada troca de marchas é tão suave que sente-se apenas o carro indo mais rápido e mais rápido, sem escutar um ruído sequer de sua estrutura mecânica. Do outro lado, um bigodudo com chapéu de texano carrega balas na espingarda P788B, é a P788B mais usada que você já viu, com todos os tipos de arranhão possíveis presentes em sua carcaça. O garoto de cabelos loiros dirige, molhou toda sua jaqueta bege na chuva depois de acabar de lavá-la a seco. E o baixinho de terno, o negociante destemperamentado que não tem profissionalismo suficiente para iniciar uma discussão sem atirar antes, estava no banco de trás com os dedos entrelaçados, como alguém que apenas senta e espera por resultados.

Jack: Cara, ... cara, obrigado!

Wheel: Disponha. Não foi a primeira e tenho certeza que não vai ser sua última.

Jack: Hah hah hah hah! Sabe como é, um pouquinho daqui e um pouquinho dali te deixam rico!

Wheel: Não, eu não sei.

Jack: Oh... hey! Eles ‘tão vindo atrás da gente, cara, o que que ‘cê vai fazer?

Wheel: Deixe comigo. Você é Jack, certo?

Jack: Si-sim! Meu nome é Jack...

Wheel: Well, Jack, hoje... hoje eu fico te devendo uma.

Jack: O-o que deve? Como assim, cara?

Wheel: Eu estou tentando fugir daquele lugar há muito tempo e nunca achei um bom motivo.

Jack: Você não bate muito bem, né?

Wheel: Depende do seu contador de giros-...


Seis tiros restantes. Estilhaços, cacos e restos do vidro em alta velocidade. Interrompido e assustado, Wheel a quase perde o controle da direção, mas ele articulou os músculos e manteve sua postura. A hostilidade chegou a um nível ao qual nunca havia se deparado antes, com água escorrendo pelos cabelos e dois bonecos de corda, um de si mesmo e um de Jack, dançando ao som de sua música. Lábios justapostos pressionados e olhar fixo no horizonte. Pressionou os dedos, já atolados no volante, a ponto de quase amassá-lo quando seu ponteiro chegou a 148Km/h. Antes de explodir.

Jack: !&¨@%*&% De onde veio esse tiro?!


Atirador: Chega mais perto, mais perto!

Motorista: Esse carro é muito pesado, não dá pra acelerar muito ou a gente pode virar.

Atirador: Passa umas balas pra cá então.

Motorista: ‘Tô com a mão no câmbio, não pede essas coisas!

Negociante: Calem a boca. Alô? Senhor? Estamos na cola deles. A placa é WCS 1124.

Motorista: Vô chegar perto, se prepara!

Negociante: Um Ford Challenger azul, estamos a caminho da Rodovia 112. Não se preocupe, vamos levar ele, nem que sejam as cinzas dele.


Jack: Acelera cara, acelera, acelera!


Negociante: Sim, sr. Obrigado, sr. Me certificarei. – Ele se inclina e desliga o telefone móvel do carro. Em seguida se senta. Tem uma postura chamativa, parecer ter certa classe por trás da atitude. – Ele quer Jack vivo. Ou vai esquartejar quem matá-lo.

Atirador: Droga, preciso tentar pegar o motorista então...


Cinco tiros restantes. Nessa hora chegou á via de acesso, e poucos quilômetros a frente estaria a interestadual; tiros e trovões rodearam a cena do crime, cheia de água e angústia, arrastando assassinos e presas para um fim comum. Quatro tiros restantes. O Dodge só acelerou e o Ford tentou ficar em sua cola, o rastro dos carros eram as cápsulas usadas, ejetadas pela espingarda à muitos e muitos quilômetros por hora; e muito embora a chuva não estivesse tão densa, o asfalto ainda se encontrava em um estado bastante umedecido para uma perseguição desse nível.

O bigodudo acerta uma placa, e numa tentativa desesperada, acerta o asfalto. Um tiro restante. A pequena estrada termina na Rodovia 112 e o caminho para ela não exige uma curva. Os carros trocam o asfalto para uma corrida de morte como dois trens em altíssima velocidade, e como uma visita que toca a campainha antes de chegar, os motoristas sentiram a diferença da pura solidão da via de acesso para o quase congestionamento da 112, compartilhando o espaço com diversos caminhões de carga, fato que dificulta muito para o Ford com seu motorista de terceira. O asfalto se tornou menos denso, mas cheio de tartarugas refletindo os sucintos faróis noturnos, trepidando poucas vezes os pneus, levando, enfim a ultrapassagem em alta velocidade: Wheel passou ao lado de um caminhão extenso, trazendo o Ford para perto, e assim o Ford abriu furos na carcaça do mesmo, zerando seu cartucho e se entregando aos faróis de caminhoneiros furiosos. O ponto de encontro dos oponentes foi entre rápidas ultrapassagens na chuva, e o Dodge trouxe o Ford exatamente para onde ele queria; as curvas rápidas. A habilidade do motorista do Dodge pegava o caminho mais seco da aquaplanagem, linhas secas do asfalto traçadas pelos pneus que passaram segundos antes e escoaram a água em seus caminhos, uma técnica comum entre pilotos de Formula 1 que dirigem na chuva; seria ótimo o Ford saber isso, mas já era tarde demais. O Mustang tentou curvas em alta velocidade e se auto destruiu, perdeu o controle da direção até ser pego por um para-choque, ricochetear, capotar e ser reduzido a peças no corredor da morte. A vitória do Dodge Challenger havia sido declarada quando soou a buzina de um dos caminhões, e antes que houvesse motivos para reclamar do estado do veículo, a saída para o KM 109 estava logo adiante para tentar alguma manutenção.


Jack: Cara..., cara! Você é bom!

Wheel: (suspiro)... Hein? Falou comigo? – Disse o motorista, como se uma grande pressão deixasse seus pulmões naquele momento.

Jack: ... Nada não...

Wheel: Vamos parar por aqui e passar a noite. Amanhã preciso estar tirar umas tachinhas da carroceria desse carro.


Com a chuva calma e a linha traçada pelos faróis vermelhos no escuro, Wheel ia ao encontro do que procurava: a pura incerteza de não saber o que encontrar, mas encontrar algo em qualquer lugar que for olhar.

Hoje chuvisca. É noite. A ansiedade turbulenta domina o coração de dois visitantes e o céu deixa os resquícios de água caírem sobre as calhas que fazem o barro na beirada de uma espelunca. Várias vidas perdidas, uma salva e uma renovada; a bota de couro se atola em água e terra, passo a passo, antes de cravar pegadas numa escada, em seguida um tablado, e logo um tapete de WELCOME, iluminado por neon. O bar dá as boas vindas ao motorista solitário, seus cabelos negros e longos, jaqueta de couro surrada, calça desbotada com rasgos e correntes penduradas e a sola de suas botas, gastas, com uma trilha de migalhas que apenas os filhos abandonados de ninguém reconhecem.


Este post foi editado por Mr. Know-it-all: 14 agosto 2012 - 01:03

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